Evento organizado pela Ambiente Valverde celebrou os 20 anos da Política Estadual de Resíduos Sólidos e destacou o setor como fornecedor estratégico de matérias-primas e energia para a reindustrialização nacional; O encontro também revelou que 90% da reciclagem no Brasil é realizada por catadores
SÃO PAULO, 20 de março de 2026 – O mercado de resíduos sólidos no Brasil atravessa uma mudança definitiva de paradigma: o descarte deixou de ser um custo de zeladoria urbana para se consolidar como um ativo estratégico da economia circular. Dados apresentados no workshop técnico realizado pela Ambiente Valverde, na última segunda-feira (16), na sede da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental, em São Paulo, confirmam o apetite dos investidores por essa nova fase econômica do mercado.
Somente o estado de São Paulo gera, diariamente, 40 mil toneladas de resíduos urbanos. Essa escala industrial tem atraído aportes vultosos, como os da Orizon, que hoje já processa 8 milhões de toneladas por ano (11% do total gerado no país) e passará a processar 14 milhões de toneladas por ano. No segmento de tecnologia, a Circular Brain revelou já ter injetado R$ 45 milhões na cadeia para recuperar metais nobres essenciais à indústria de semicondutores e à inteligência artificial.
Para José Valverde, mestre em Direito Ambiental Internacional e CEO da Ambiente Valverde, o momento é de converter o avançado ordenamento jurídico do país em rentabilidade operacional. “O setor de resíduos sólidos passou por uma transformação profunda e hoje é um vetor de desenvolvimento econômico. Materiais que antes eram descartados passaram a ser valorizados, e as empresas agora investem em soluções ambientais como estratégia de competitividade.”
Mineração urbana e transição energética
O reaproveitamento de materiais foi apontado como vital para a independência da indústria e a soberania de insumos. Com 25 anos de experiência na articulação de marcos regulatórios e tendo atuado como coordenador técnico na elaboração tanto da Política Estadual (PERS) quanto da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), José Valverde destaca que o Brasil já possui o alicerce para liderar essa transição.
“Compreender a política pública é compreender para onde o mercado está caminhando. As diretrizes atuais criam ambientes que estimulam novas rotas tecnológicas e garantem que o resíduo seja tratado como matéria-prima de alto valor”, pontua Valverde. E o debate no evento trouxe dados que comprovam essa tese:
Matriz limpa: A Verdera Solutions (Votorantim) destinou 1,3 milhão de toneladas de resíduos para coprocessamento no último ano, gerando energia térmica para a fabricação de cimento e substituindo combustíveis fósseis.
Recuperação de insumos: A Circular Brain opera hoje com mais de 17.000 pontos de coleta em todo o território nacional, tendo retornado 53 mil toneladas de eletrônicos ao ciclo produtivo em 2024.
Descarbonização: O programa Mãos Pro Futuro (ABIHPEC/ABIPLA/ABIMAPI/ABRAFATI/ABIÓPTICA) já recuperou 1,15 milhão de toneladas de materiais, evitando a emissão de 4 milhões de toneladas de gases de efeito estufa em uma década.
Inovação e novos modelos de negócio
O evento demonstrou que o futuro do setor exige inteligência estratégica para antecipar tendências. No entanto, a indústria enfatizou que, para avançar em sustentabilidade e atrair investimentos, as políticas públicas precisam garantir quatro premissas: previsibilidade, segurança jurídica, viabilidade técnica e viabilidade econômica.
Para o diretor do Departamento de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente, Eduardo Rocha, o Brasil já lidera com o melhor sistema de monitoramento de recicláveis do mundo, tendo dobrado de tamanho com um aumento de 70%. “Sabemos a origem e o destino final até chegar à indústria. É fundamental ter uma legislação que traga segurança jurídica para integrar a economia do setor de resíduos com a indústria”, afirmou Rocha.
Reforçando essa necessidade de monitoramento, o evento destacou o papel da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), presidida por Pedro Maranhão, e o Sistema Reciclômetro. A ferramenta, que nasceu como uma startup, integra a gestão da coleta e comercialização de resíduos. Hoje, o sistema é adotado por todas as cooperativas ligadas ao spRegula e pelas centrais mecanizadas de São Paulo, permitindo que o mercado e os órgãos públicos operem com dados auditáveis e rastreabilidade total.
Neste cenário, a integração tecnológica e a economia de dados surgem como diferenciais competitivos fundamentais. Entre os exemplos, temos:
- Economia de dados e geopolítica: O painel alertou que não existe economia circular sem uma economia de dados e rastreabilidade. A reciclagem de eletroeletrônicos tornou-se uma questão geopolítica, pois minerais críticos (como cobre, cobalto e lítio) são fundamentais para a transição energética e inteligência artif no icial.
- Aproveitamento energético regionalizado: Foram apresentados casos práticos de inovação, como no Pará, onde organizou-se uma cadeia para utilizar o caroço do açaí como biomassa para energia, e no Paraná, onde rejeitos de cooperativas são transformados em Combustível Derivado de Resíduo.
- Ressocialização e renda: O case da JG Recicla exemplifica o potencial empreendedor do setor: a empresa opera a desmanufatura de eletrônicos e já incubou 12 novos microempreendedores que agora possuem seus próprios CNPJs.
- Escala regional: A regionalização e as soluções consorciadas permitem maior eficiência dos recursos aplicados no manejo, destravando o potencial econômico brasileiro em escala nacional.
A ponta da cadeia produtiva e o alerta tributário
Apesar do otimismo e das cifras bilionárias, o workshop fez um alerta contundente sobre a vulnerabilidade da base dessa cadeia produtiva. Estima-se que mais de 800 mil pessoas vivam da coleta de materiais no Brasil e que 90% de toda a reciclagem passe pelas mãos dos catadores.
Atualmente, segundo representantes da categoria presentes, como o presidente da Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem, Jair do Amaral, ressaltaram que esses profissionais trabalham sem remuneração pela prestação do serviço ambiental, recebendo apenas pelo peso do material comercializado.
O cenário é agravado pelo recente retorno da cobrança de PIS/COFINS, que gerou uma taxação de 9,25% sobre o setor. Segundo os debatedores, esse custo tributário está sendo empurrado para o elo mais fraco, o que pode reduzir em cerca de 10% a renda final dos catadores e empurrá-los de volta para a informalidade.
Homenagem ao legado de Arnaldo Jardim
O workshop também contou com a participação fundamental e a homenagem especial ao deputado federal Arnaldo Jardim, autor da Política Estadual de Resíduos Sólidos (PERS) de São Paulo, que completa 20 anos. O reconhecimento celebrou sua trajetória na construção das bases legais que hoje garantem a segurança jurídica e a previsibilidade do mercado.
Como autor da lei, Jardim foi destacado como peça-chave para o desenvolvimento do ordenamento jurídico que permitiu ao país atrair investimentos e modernizar a infraestrutura ambiental. A homenagem reforçou que seu trabalho legislativo foi o alicerce necessário para que o resíduo deixasse de ser visto como um problema de zeladoria e passasse a ser um pilar estratégico da reindustrialização nacional e da economia circular.
À frente da Ambiente Valverde, José consolida-se como o principal articulador e elo de ligação entre o setor privado, o poder público e o terceiro setor, preenchendo uma lacuna crítica na tradução de normas em oportunidades de negócios. “A união da inovação do setor privado com políticas públicas claras estabelece diretrizes que estimulam novas rotas tecnológicas e novos investimentos. Tivemos a oportunidade de entender no workshop a revisão em curso do plano estadual em vigor e as tendências que a sua nova versão apresentará”, finaliza o especialista.
Conexões que movimentam a economia
O sucesso do workshop foi viabilizado com o apoio institucional de 30 empresas, entre elas a Queiroz Participações e Investimentos e a VoxCom. A presença delas aponta para a expansão de um mercado que atrai diversos setores econômicos muito além do ambiental, consolidando a reciclagem como um ativo financeiro e tecnológico.
O encontro reuniu ainda lideranças multidisciplinares, como a desembargadora federal Consuelo Yoshida (TRF3), Mimo Ravagnani (CONSIMARES), Alessandra Puccini (CEMPRE), Alexandre Furlan Braz (Conecta-LIR), Roseane Garcia (ABES), o secretário Rodrigo Ashiuchi (PMSP) e o subsecretário Cristiano Kenji (SP).
O evento demonstrou que ao integrar rigor jurídico, tecnologia e capital, o Brasil cria uma nova dinâmica onde a sustentabilidade é o principal motor de desenvolvimento.

José Valverde Machado Filho é professor-mestre em Direito Ambiental Internacional; mestre em Direito Ambiental; e especialista em Direito Ambiental, em Gestão Ambiental e em Segurança Alimentar e Nutricional; é diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Federação de Hotéis, Restaurantes e Bares do Estado de São Paulo (Fhoresp); e autor de inúmeros livros e de artigos sobre Resíduos Sólidos e Segurança Alimentar

